Recursos individuais para a travessia da adolescência

A adolescência marca um novo momento na vida do indivíduo, como é possível vivenciar e atravessar esse período de forma psiquicamente “saudável”? (Lembrando sempre que “saúde” não quer dizer enquadrar o indivíduo em um estigma psíquico do “normal” enquanto “adaptado”, considerando-se sempre a individualidade que há em cada um.) Como vivenciar a adolescência em um momento tão novo e desafiador que globalmente estamos vivendo? É disso que falaremos neste texto. 

Vamos usar novamente a metáfora da travessia de um rio: o adolescente já saiu da margem de onde estava e pretende chegar à outra margem. O meio desse rio, o espaço entre uma margem e outra, é a juventude. Saiu-se de uma margem para a qual já não se pode voltar, a infância, e visa-se chegar à outra, que é a vida adulta.

Quando se adentra na adolescência, acontece a primeira vez de muitas coisas: novos sentimentos, questionamentos e interesses, por exemplo. O adolescente se encontra  diante de inusitadas situações em que precisa tomar decisões e com cujas consequências ele próprio, de alguma maneira, terá de lidar. (Importantíssimo salientar que há decisões que os pais são os responsáveis em tomar, responsabilidades que ainda são bastante deles.)

Além disso, olhando para o momento presente, há uma realidade bastante nova: uma pandemia. E aí?

Assim como a pandemia atinge diferentemente as várias realidades sócioeconômicas, ela também se diferencia em relação às ‘condições psíquicas’. Os recursos psíquicos que uma pessoa tem para vivenciar determinada situação nas diferentes idades não são os mesmos. 

A criança, por exemplo, tem como principal recurso o ‘brincar’. O jovem, por sua vez, já tem a narrativa, a palavra, uma possibilidade ficcional sem precisar dos brinquedos. 

Com a pandemia, está sendo preciso reconstruir coisas no pequeno cotidiano. E aqui, cada um vai achar seu modo próprio, mais confortável, que melhor lhe cabe e lhe está ao alcance, recursos próprios que permitem um estar presente com menos angústia. 

Entretanto, alguns pontos podem ser de alguma ajuda para possibilitar uma travessia mais tranquila:

  • É possível cultivar a própria individualidade a partir de diferentes ferramentas: tantos são os livros para ler, filmes para ver, inclusive as atividades que não são só de ‘produção’. 
  • Se o mal- estar não é elaborado, pode retornar de forma irruptiva, violenta. Por isso, falar de si e compartilhar sentimentos e angústias com alguém de confiança não é pouca coisa. 
  • É importante lembrarmos que uma promessa de total satisfação nunca se realiza. Nem sempre as coisas dão certo. Nem sempre vai estar tudo bem. A frustração está presente, assim como a felicidade está presente num dia e no outro nem tanto. É assim que somos de verdade. O ser humano é um ser de sentimentos, de falhas, de potência criativa, de afetos, de inteligência que permite criar várias coisas. É tudo isso junto. 

(Ressalto que uma tristeza profunda, assim como algum outro estado emocional demasiado intenso, que incapacita o indivíduo nos diferentes âmbitos da vida, pode merecer um olhar mais atento pela família ou responsável.)

  • Ficar em casa não é ficar só. A família é um importante recurso de trocas. As conversas cotidianas, as atividades compartilhadas e as brincadeiras são elementos importantes no estreitamento dos vínculos. (Ainda que esses vínculos muitas vezes encontrem algumas barreiras: as dificuldades inerentes das relações familiares que podem tornar a convivência um pouco desafiadora.)  

Os encontros virtuais podem ser um bom recurso na manutenção dos laços com os amigos, laços esses de grandíssima importância para o adolescente! Existem, sim, os limites da virtualidade. Entretanto é plausível fazer o melhor uso possível deste recurso para se manterem os laços e vínculos com aqueles que tanto fazem bem para o adolescente. 

Paula Ferruda Medri

Psicóloga Clínica

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