Aspectos psíquicos que caracterizam a adolescência

A adolescência caracteriza-se por um momento da vida que é da ordem de uma “travessia”: é momento de trilhar um caminho já não mais o mesmo do trilhado até então. A infância e suas vivências correspondentes não se presentificam mais.

A realidade externa já não traz mais os mesmos elementos encontrados na infância: os tipos de laços sociais mudam, o corpo muda, as demandas sobre o indivíduo tornam-se outras e novos questionamentos passam a surgir.  Essas interrogações abarcam os âmbitos: corporal (no qual mudanças físicas ainda não sentidas até aqui passam a acontecer e serem percebidas), o âmbito psíquico e dos laços sociais. 

Podemos chamar essa travessia, em termos psíquicos, de uma “reorganização identificatória”. Ou seja, o indivíduo passa por um novo “recalcular de rotas” em termos subjetivos: quem sou eu? O que está acontecendo com o meu corpo? Gosto disso mesmo? O que são essas emoções que estou sentindo? 

É como imaginarmos um navegante: ele pega o seu barquinho para atravessar um rio de uma margem à outra, percurso no meio do qual muitas intempéries podem assombrá-lo. Por isso, são necessárias ferramentas.

No que se refere ao psiquismo, as referências infantis são as ferramentas necessárias para a continuidade da viagem, mas não bastam mais por si só. Freud aponta para a principal mudança neste momento da vida de um indivíduo: o deslocamento do investimento psíquico até então voltado majoritariamente às figuras parentais para a escolha de novos pontos de referências. Por isso o grande interesse pelo grupo de amigos, por figuras como a dos mestres e outros referenciais. 

Essas mudanças têm repercussões nos investimentos das relações do adolescente. O grupo de amigos, por exemplo, torna-se uma grande fonte de identificação, por meio do qual as atividades cotidianas compartilhadas podem revelar uma tentativa conjunta de elaborar impasses relativos aos novos desafios vividos pelo indivíduo. 

O momento da adolescência é, também, o momento da imagem de um corpo que passou a ser sentido, muitas vezes, como estranho. A imagem de um “quem sou eu” sofre um abalo pelas modificações corporais que a puberdade impõe. É necessário, então, que o adolescente se re-aproprie de um corpo que, por outro lado, nunca deixou de ser seu. É como se seu corpo precisasse ser novamente re-conhecido. Trata-se tão somente do luto pelo corpo da infância e da assunção de um “novo” corpo adulto.

É importante salientar também que, diante das novas demandas da sociedade contemporânea, pode surgir uma diferença entre o que o sujeito é e o que ele deseja ser. Portanto, o olhar cauteloso e atento do adolescente para seus sentimentos diante das escolhas é também de grande relevância, visto que muitos adoecimentos psíquicos denunciam o alto custo de uma existência regida pela performance.

Ainda que permeado por movimentos de dúvidas e dificuldades, o sofrimento adolescente não implica, necessariamente, a instauração de um padecimento psíquico: ele é um movimento próprio desse momento de travessia.

Para finalizar, ressalto um ponto fundamental a ser sempre considerado pelo adolescente quando olha para si próprio e para todos os que com ele fazem laço: não se pode falar de adolescência de forma generalizada. Há todo tipo de adolescente: os mais e menos tímidos, os praticantes de esporte, os que preferem estudar música, os que não gostam de rock e os que gostam – e segue-se a lista das infinitas possibilidades de posicionar-se no Mundo. E isso é o que faz de cada um ser único e singular.  

Paula Ferruda Medri

Psicóloga Clínica

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